28 de janeiro de 2011

as reacções

A decisão de contar a alguém da nossa relação já estava tomada. Restava saber exactamente a quem, e a ordem em que íamos contar.
Antes de mais, no dia a seguir à primeira noite em que nos beijámos, contei logo à pessoa em quem mais confio, a quem confio mesmo de olhos fechados. Àquela que pessoa com quem me dou desde que me conheço como gente e que sabia que, apesar de ser provavelmente das pessoas que melhor me conhecem e uma das únicas que acompanhou toda a minha vida, não ia ficar chocada nem nada dessas coisas. Sabia que me ia ouvir e aconselhar, tudo o que estava a precisar. A minha prima.
A primeira pessoa do nosso grupo de amigos a quem decidimos contar acabou por ser a mais óbvia. Um amigo gay. Tendo em conta que esta nossa situação era tão novidade para mim como para a MJ, achámos que seria mais fácil e que ia ter uma boa reacção. De facto, o nosso palpite estava certo. Ele achou imensa piada e ficou mesmo contente por nós. Surpreendido? Nada. Até porque eu já tinha falado com ele algumas vezes antes sobre a possibilidade de ninguém ser totalmente hetero, ou totalmente homo.. simplesmente uma pessoa pode apaixonar-se por outra independentemente do sexo, ou da aparência, apaixona-se por aquilo que ela é.
A seguir a ele, decidimos contar a um casal, duas pessoas mais velhas, com mente bastante aberta e em quem confiamos plenamente. A reacção foi a esperada. Aceitaram com bastante facilidade e a surpresa também foi pouca ou quase nenhuma mesmo. Parece que há pessoas que reparam mesmo em quase tudo e que pouco ou nada deixam escapar!
Depois do casal, um amigo bissexual. Esse sim, ficou surpreso! Disse que nunca me tinha imaginado com uma rapariga. Apesar da surpresa, ficou muito contente pelo sentimento que tínhamos uma pela outra. Aliás, sendo ele nosso amigo, não esperávamos outra coisa dele.
Quatro pessoas do grupinho já estavam. Faltava então uma pessoa, uma rapariga. Confesso que tinha um bocado de medo da reacção dela. De todos, era de quem menos imaginava a reacção que ia ter. Como nossa amiga, esperava que aceitasse e que continuasse a ser connosco o que sempre foi. Mas, no fundo, admito que tinha medo que se afastasse de nós, ou que mudasse a maneira de estar. Mas, de todos, foi também quem teve a reacção mais engraçada! Ahah. Riu bastante, não acreditou, olhou para nós, viu que estávamos a falar a sério, sentou-se, riu outra vez. No fim de tudo isto, disse que era na boa e que não ia mudar nada! Uff. Alivio.
No fim de tudo isto, orgulhei-me a sério dos amigos que tenho.
Para além destas pessoas, contei a outra amiga que conheço desde sempre e cuja reacção confesso que também me surpreendeu um bocado. Ficou completamente na boa.
A quem foi mais difícil de contar, foi à minha irmã, uma miúda de 14 anos, que se revelou ser mais mulherzinha do que aquilo que pensava. Primeiro, custou-lhe a acreditar, como era de esperar. Mas, depois de ler este meu blog, percebeu que estava de facto a falar a sério. Aceitou muito bem mesmo. Até me perguntou qual era a sensação! Disse também que era um bocado estranho para ela, que tinha ficado um bocado chocada. Mas é perfeitamente normal que pense isso. Afinal de contas, sou irmã dela, conhece-me desde que nasceu, conheceu namorados meus.. Mas aceitou e ficou também contente por eu estar feliz como nunca! Agora sim, orgulho-me mesmo imenso dela. Fez-me ter esperança na geração dela. Fez-me acredita que a sociedade vai mudar!
Agora agradeço a todos pelo apoio. Se bem que, quando há verdadeira amizade, os amigos querem a felicidade uns dos outros, independentemente de tudo. Quando há verdadeira amizade, não é preciso agradecer, basta devolver a amizade de maneira igual.
De facto, os amigos são mesmo o melhor do Mundo!

22 de janeiro de 2011

nosso mundo vs mundo real

Depois do reencontro em público, no qual quase nem tocar-lhe podia, tivemos o tão espero reencontro a sós.
Estava nervosa. Não sabia o que fazer, ou o que dizer. Apetecia-me beijá-la, abraçá-la, dar-lhe a mão... Mas, no fundo, faltava-me o à vontade. Faltava-me a certeza de que ela queria o mesmo que eu, ali, naquele preciso momento. Pouco faltou até descobrir que sim, queria o mesmo que eu!
Ali, no meu quarto, começou a formar-se um novo Mundo, um Mundo completamente à parte, o nosso Mundo. Era ali, no meu quarto, que podíamos ser realmente nós, que podíamos demonstrar uma à outra o que sentíamos. Começámos a passar mais tempo ali dentro, do que em qualquer outro sítio. Ninguém do lado de fora sabia desta nossa nova vida, desta nova razão de existir. Ninguém do lado de fora sabia o que sentíamos uma pela outra.
Ali, no meu quarto, éramos tudo. Não haviam vergonhas, constrangimentos, tabus ou medos. Havia gargalhadas, toques, pura felicidade. Era um completo sonho, onde a noção da realidade estava sempre presente. Quando saíamos à rua, não passávamos de duas boas amigas, como qualquer outras duas boas amigas.Era como se nada estivesse a acontecer, era como se nada nunca tivesse acontecido. Quando voltávamos ao Mundo Real, um simples olhar que trocávamos podia ser detectado. Um olhar cheio de vontade, um olhar cheio de desespero, um olhar cheio de sentimento...
Começámos a ter noção do quão complicados os dias iam passar a ser. Do autocontrole que tínhamos de começar a ter.
O primeiro jantar "pós-férias" não tardou muito. Nestes jantares, nunca falta o álcool, que em nada ajuda no autocontrole. A MJ não parava de beber, bebia para esquecer, dizia ela. Eu, pouco ou nada bebi. Sabia que não podia. Tinha de manter o controle pelas duas. Caso contrário... a noite podia ter corrido mal, muito mal. Acabámos por dormir em casa dum casal do nosso grupo de amigo, onde foi o jantar.
Sabíamos que a nossa relação não ia ser fácil. Mas havia algo que a podia tornar melhor. Contar ao nosso grupo de amigos talvez fosse uma boa solução. Pelo menos, podia haver alguém à frente de quem podíamos o misturar o nosso Mundo com o Mundo real. Mas será que íamos ser aceites? Será que os nosso amigos iam realmente mostrar ser nosso amigos e querer a nossa felicidade acima de tudo? Apesar do medo que ainda havia, a certeza de que eles não nos iam desiludir era maior.

21 de janeiro de 2011

a conversa, as saudades

Depois de ter tido a noção do que estava realmente a sentir, tinha de falar com ela. Tinha de lhe perguntar o que ela tinha sentido quando estivemos juntas. Tinha de lhe perguntar o que ela sentia por mim. Tinha de perceber e saber qual o lado dela. Então, mandei-lhe uma mensagem.
Na mensagem que lhe mandei, perguntei se tinha a noção de que nunca tinha estado com outra mulher antes, de que nunca sequer tinha sentido qualquer tipo de atracção por uma. (De facto, para mim, mulheres sempre tinham sido simplesmente mulheres. Amigas, colegas, indiferentes..) Disse-lhe também que, apesar de tudo isso, tinha gostado de estar com ela, tinha-me sentido mesmo muito bem. Confesso que não sabia qual seria a resposta dela. Apesar de muito amigas e de já ter notado algo "de estranho" em relação a nós, nunca lhe tinha perguntado qual era realmente a orientação sexual dela. Finalmente, a resposta chegou. Disse que também nunca tinha estado com nenhuma mulher antes. Tal como eu, sempre tinha sido heterossexual e era assim que ela se sabia e conhecia. Apesar disso, também se tinha sentido muito bem comigo e estava a lixar-se para o resto e que o melhor era levarmos tudo isto "na descontra". Apesar de contente com a resposta dela, não sabia o que queria. Ainda era tudo muito estranho para mim.
Estivemos um dia longe uma da outra. Apenas um dia bastou para sentir saudades dela.
Nesse dia que parecia interminável, pensava sobre tudo e sobre nada. Lembrava-me a toda a hora de cada momento que tivemos. Lembrava-me a toda a hora do olhar, do sorriso, do toque, do beijo.. Sabia que só queria voltar a estar com ela para a ter novamente. Assim. Comigo.
O dia estava a acabar. Faltava pouco para a ver de novo.
Quando finalmente os nossos olhos se voltaram a cruzar, a vontade de a abraçar crescia dentro de mim. No entanto, fui-me apercebendo de que a ideia de estar apaixonada por uma mulher era muito mais simples e fácil de aceitar do que tudo o que isso implica quando se vive numa sociedade como a nossa..

19 de janeiro de 2011

a descoberta

Uns dia antes da passagem de ano, eu e MJ dormimos juntas pela primeira vez. Mãos dadas, cara quase colada, beijinhos na cara, a noite toda agarradas... Amizade? Sem dúvida. Mais ainda do que apenas amizade? Absolutamente.
Mais uma noite. Mais do mesmo.
Um dos desejos para 2011: continuarmos tão próximas, ou mais ainda.
Fiz questão de que fosse a primeira pessoa a abraçar neste novo ano. Um abraço carregado de tanto sentimento que quase a sufocava.
Alguns minutos depois da meia noite e depois de toda aquela algazarra e euforia características nos jovens por mais um ano ter passado, a MJ beijou-me pela primeira vez. Reacção: um grito. Admito que não estava à espera daquilo. Ou talvez já tivesse, talvez já tivesse pensado em fazê-lo, mas nunca pensei que alguma vez fosse realmente acontecer. Depois disso, um xoxo aqui, um xoxo ali... Até que voltámos para casa.
Em casa, já só desejava que todos fossem dormir para ver o que ia acontecer depois, só as duas, sem ninguém à nossa volta. A curiosidade e a ânsia de saber eram imensas. E as pessoas teimavam em não se deitar...
Finalmente, pudemos ficar a sós. Xoxo, xoxo, xoxo, língua, língua... Lembro-me de pensar que a língua dela era diferente de todas as que já tinha experimentado. Era rugosa. Lembro-me de pensar "Mas o que está a acontecer, afinal?". Não conseguia parar. No fundo, aquela situação pareceu-me absolutamente normal, tendo em conta tudo o que já tinha acontecido antes, e toda aquela carga de qualquer coisa especial à nossa volta. Sentia-me tão bem com ela. Nem era preciso falar, bastava olhar para ela para saber que ela estava a sentir o mesmo. Bastava sentir-nos...
Acabámos por adormecer. Mais uma vez, agarradinhas.
Quando acordei, sei que pensei: "Será que foi um sonho? Se não foi, terá sido uma coisa de momento, ou vai acontecer outra vez?". Pouco demorou a perceber que não, não tinha sido apenas um sonho e que sim, ia acontecer outra vez.
Éramos para ir embora nesse dia. Ela pediu-me discretamente para ficarmos. E eu fiquei. Queria ficar. Passei o dia todo a desejar que a noite chegasse depressa. Não conseguia parar de olhar para ela. Não me conseguia afastar.
Depois de uma dia que parecia não ter fim, a noite chegou. Estávamos novamente a sós. Voltámos a beijar-nos até altas horas. Era difícil parar, era difícil pensar sequer em dormir quando aquele era o único momento em que podíamos estar realmente juntas a conhecermo-nos uma à outra como nunca pensei vir a conhecer uma mulher, a descobrirmos em conjunto o que sentíamos uma pela outra e a deixar esses sentimentos vir ao de cima.
Foi tudo tão puro.
Quando me fui embora, não conseguia deixar de pensar nela e no que tinha acontecido. Sentia-me como há muito não me sentia. Feliz, simplesmente. As dúvidas do que sentia começaram a desaparecer. Estava realmente a apaixonar-me por uma mulher.

18 de janeiro de 2011

o começo

Não há muito tempo, eu e a MJ, chamemos-lhe assim, não passávamos de duas colegas de turma como todas as outras. Estávamos juntas quando tínhamos de estar, falávamos quando tínhamos de falar. Mas não tínhamos aquilo a que podíamos chamar de uma grande amizade. Gostava dela, como gostava de mais gente da turma. Era uma pessoa absolutamente normal.
Nesse "não há muito tempo", eu namorava com um rapaz e também pouco ou quase nada saía ou estava com as pessoas da minha turma, a não ser o tempo de aulas e mal.
Entretanto, o namoro acabou e a minha vida mudou. Finalmente podia aproveitar o melhor que a Universidade pode dar, as amizades. Não sei como, não sei porquê, mas fui aproximando da MJ. Fui estando mais tempo com ela, fui começando a conhecê-la realmente e começando realmente a gostar de a conhecer. Entre jantaradas, bebedeiras, faltas às aulas para passar tardes inteiras no café e coisas que tais, fomos criando uma forte amizade. Pouco demorou a andarmos sempre juntas.
Encontrei na MJ uma pessoa cinco estrelas. Com uma personalidade e um feitio especiais, diferentes. "Maria-rapaz", despreocupada, divertida... Não sei explicar, mas qualquer coisa começou a atrair-me nela. Quanto mais estava com ela, mais queria estar. Quanto mais tinha dela, mais queria ter. Das mãos dadas aos abraços carregados de muita coisa mais que amizade no calor da bebedeira, dos olhares cúmplices aos carinhos na absoluta sobriedade... Algo de estranho se começava a passar.
De facto, sempre defendi a ideia de que nos podemos apaixonar pela personalidade duma pessoa, independentemente do seu sexo, ou do seu aspecto. O que é certo, é que não era só a personalidade dela que me atraía. Confesso que algo no seu aspecto me prendia também. No fundo, tinha a noção de que estava a começar a ficar apaixonada. Mas, automaticamente, o meu cérebro bloqueava essa ideia porque, pura e simplesmente, "não podia ser". Como podia eu estar a apaixonar-me por uma mulher se nunca na vida tinha sentido qualquer tipo de atracção por uma?! Como podia eu estar a apaixonar-me por uma mulher se já tinha tido uns quantos namorados e se sempre tinha gostado apenas e só de homens?!
Tantas certezas antes, tão poucas certezas depois. Parece que a vida já tinha planeado em pregar-me uma partidazinha...

17 de janeiro de 2011

este é um blog anónimo

Este é um blog anónimo de alguém que achava que se conhecia quase por completo, mas que, há muito pouco tempo e já nos seus vinte anos, descobriu que há muito mais para conhecer dela do que aquilo que pensava.
Heterossexual desde que se lembra de existir, começou a ter sentimentos completamente desconhecidos por aquela em quem via "a melhor amiga". Sentimentos esses que automaticamente eram arrumados pelo cérebro na zona da amizade, já que era como se não pudessem ser outra coisa. Numa noite, esses sentimentos começaram a fazer sentido, mas tudo até então deixou de o fazer. A partir dessa noite, tudo mudou. Descobriu amar alguém do mesmo sexo. Descobriu que essa pessoa, também heterossexual até então, a amava a ela.
Este é um blog anónimo de alguém que, apesar de todas as descobertas e de todas as surpresas, está muito feliz e precisa de partilhar a sua felicidade com o mundo.
Este é o meu blog. Esta é a minha nova história.