7 de março de 2011

os pais

Muitas vezes, dou por mim a pensar em qual vai ser a reacção dos meus pais quando eu lhes contar que estou a namorar com uma mulher. Por vezes, tenho quase a certeza de que vão aceitar sem levantar grandes ondas, pois são meus pais e querem o melhor para mim. Não tenho dúvidas de que estar com a MJ é, de facto o melhor para mim e de que é o melhor que alguma vez me aconteceu na vida. Mas, outras vezes, penso que eles não vão perceber esse facto, e o facto de fugir ao que eles sempre acharam "normal" em mim e na sociedade em geral, e cresce em mim o medo de não aceitarem o que está a acontecer de momento na minha vida.
Sem dúvida de que o apoio dos amigos é mais que fundamental, mas ainda menos dúvidas tenho de que o apoio dos pais, é o melhor apoio que podemos ter. Afinal, os nossos pais são os nossos pais, são quem mais nos ama, e, normalmente, de forma incondicional. Sempre tive a ideia de que, independentemente do que façamos na vida, os pais estão sempre lá do nosso lado e mesmo que não concordem com algumas atitudes e decisões, acabam sempre por nos apoiar. E, agora, ao pôr a hipótese de que os meus pais possam ficar tristes com esta novidade na minha vida, por não ser o que eles esperavam que eu fizesse, deixa-me um pouco triste também e sei que, caso isso aconteça, me vai custar bastante.
De qualquer forma, qualquer que seja a reacção deles, nada vai mudar. Se aceitarem, mesmo que não gostem, melhor. Mas se não aceitarem, paciência.
Sei que essa altura depressa chegará. Porquê? Porque não aguento muito mais sem lhes contar.
Por vezes, penso que ainda é cedo demais, porque, apesar de ter a certeza dos sentimentos e de confiar de olhos fechados na nossa relação, há sempre o medo de que alguma coisa corra mal, mas isso é uma coisa completamente normal, tanto nos casais hetero como nos casais homo. Mas noutras vezes, dá-me uma vontade tão grande de lhes contar, que parece que até me sai pelos poros!
No entanto, acredito que quando tiver de ser, conto-lhes e pronto. E vou continuar com a confiança de que aceitem sem levantar grandes ondas até que eles façam o contrário, o que espero que não aconteça.

14 de fevereiro de 2011

amo-te

Hoje sabes o que me deixa triste, MJ? O facto de não poder estar contigo. Eu sei que não passa só de um dia como todos os outros, apenas com um nome diferente, mas porra, eu sou lamechas e o dia dos namorados é sempre o dia dos namorados, ou namoradas, neste caso.
Gostava de ter acordado a teu lado, dar-te muitos beijinhos de bom dia, estar horas simplesmente a olhar para ti, a apreciar toda essa tua beleza. Gostava de ter feito uma mistela qualquer para o almoço, e de agora estar enroscadinha a ti a ver um filme qualquer e depois outro... E logo, gostava de poder ir jantar contigo a um restaurante todo bonitinho, com velinhas e tudo.
Mas não... Apenas posso imaginar que o dia pudesse ser realmente assim.
Sabes uma coisa? Fazes-me tanta falta. Como é possível que não te veja apenas há um dia e que já esteja aqui a morrer de saudades tuas pelos cantos? Como é possível que me dê um friozinho na barriga só de pensar que ainda falta uma para estar contigo outra vez? Se calhar é porque já não vivo sem ti. Habituei-me à tua presença dia após dia, noite após noite, e agora custa-me não te ter comigo. Sabes que ontem à noite demorei horas a conseguir adormecer? Sentia falta de algo ao meu lado. Sentia a tua falta. Sentia e sinto. Os meu dias são tão mais pobres sem tu estares a meu lado. Mas ao mesmo tempo tão mais ricos desde que entraste na minha vida! As saudades podem ser muitas, mas nem por um segundo deixo de sentir esta felicidade imensa que sinto desde que estou a teu lado. Porque tu me fazes feliz
Penso em ti a todo o segundo e sei que quando penso em ti, tu também está a pensar em mim. Isso atenua um bocadinho as saudades. Parece que, pelo menos em pensamento, podemos estar juntas. E aí, longe de tudo e de todos, não temos de ter medo de nada, reservas ou vergonhas. Aí não há férias, fns-de-semana, ou horas sem ti. Aí, existimos apenas nós e tudo o que sentimos uma pela outra.
Agora fecha os olhos. Fechas os olhos e imagina-me a teu lado. Imagina-me a olhar para ti, a dar-te a mão. Imagina-me a aproximar de ti, a beijar-te. Depois, um mega abraço. Imagina-me agora a olhar-te nos olhos e a dizer que te amo...
Um bocadinho lamechas, sim. Mas, afinal, hoje é ou não é dia para lamechices? (Como se eu não fosse lamechas nos outros dias...)
Podes não ter direito a uma prenda dentro de um embrulho fofinho, mas uma coisa tu já tens... o meu coração. É todo teu. Sem embrulho nem fitinha. Simplesmente ele. Simplesmente todo o meu amor.
Amo-te.

13 de fevereiro de 2011

o hoje

Fui contando o início da história de mim e da MJ aos poucos. Tudo o que passámos é importante, claro, tal como tudo o que ainda vamos passar, mas haverá algo mais importante que o Presente?!
Hoje eu a MJ estamos juntas há pouco mais de um mês. Já nos habituámos ao facto de só podemos ser realmente namoradas no nosso Mundo, sendo que este nosso Mundo já não é apenas o meu quarto. O nosso Mundo passou a ser também a casa dela, a casa dos amigos... No entanto, o nosso Mundo ainda está longe de se misturar com o Mundo real. Mas confesso que se está a tornar cada vez mais difícil resistir à vontade que tenho de sair à rua e gritar a toda a gente que amo a MJ e que nunca na vida fui tão feliz.
Sim, é verdade. Nunca na vida me senti tão feliz, nunca na vida me senti tão bem com alguém como sinto agora. Curioso que, com tantos namorados que tive, me sinta desta maneira com uma Mulher. Mas não é uma mulher qualquer, é a Mulher! É nada mais nada menos que a mulher da minha vida. a Mulher que eu amo. Sem dúvida alguma que nunca senti algo tão intenso nem tão verdadeiro.
Em todas as minhas anteriores relações, eu acabava por ser quase obrigada a abdicar de algo que fazia parte de mim e da minha maneira de ser, pelo bem-estar da relação. Claro que isso acabava por não contribuir para o meu próprio bem-estar, mas isso acabava por ser irrelevante. Agora, com a MJ, sinto-me a descobrir coisas de mim que nem eu própria conhecia. Agora, sinto-me realmente eu, sem nada a mais nem nada a menos., sou eu, simplesmente eu.
A felicidade que sinto neste momento é tão pura, tão verdadeira, tão simplesmente felicidade!
Sinto que alcançámos uma relação perfeita. Nem eu nem ela somos perfeitas, ninguém o é. Mas juntas, completamo-nos... O que ela tem a mais, eu tenho a menos. O que eu tenho a menos, ela tem a mais. Será que realmente existem almas gémeas? E se existem, será que eu e a MJ o somos?
Tudo o que sei é que estou mesmo muito feliz e que, apesar de nunca ter pensado que era possível vir a apaixonar-me por uma mulher, estou cada vez mais apaixonada pela MJ.
E agora, o que virá a seguir? Sei que basta nos distrairmos uma vez para que toda a gente fique a saber de nós. Mas confesso que já estou por tudo. Agora, venha o que tiver de vir. Estou aqui para isso e disposta a lutar pelo que sinto. Uma coisa é certa: não vou desistir da MJ nunca.

2 de fevereiro de 2011

o pedido

O romance entre mim e MJ estava a correr realmente muito bem. Estávamos bem juntas, dávamo-nos bem. Era bastante notório que o que sentíamos estava a crescer quase a olhos vistos. O que eu já sentia por ela era já mesmo muito forte. E, pela segunda vez, disse a palavra "amo-te" com todo o sentimento que ela carrega. O facto de estar com uma mulher era já secundário. Estava feliz, realmente feliz.. Que mais podia importar?!
Começava a crescer em mim uma enorme vontade de sair à rua, dar-lhe a mão, beijá-la e dizer a toda a gente o que sentia por ela, que não passávamos de meras melhores amigas, que éramos muito mais que isso, éramos pseudo-namoradas. Sim, era este o termo que nos atribuíamos. E, na verdade, o que mais importa é o que se sente pela pessoa com quem estamos, e não o título que pudemos ter.
No entanto, parecia que faltava qualquer coisa para colmatar o que sentíamos. Faltava o tal pedido.
Num fim de tarde gelado, estávamos em casa dum colega nosso, aquele a quem contámos primeiro. Uma casa com uma piscina fantástica, com vista para toda a "nossa cidade", sob um imenso e lindo luar. Aí, na rua à beira da piscina, eu e a MJ estávamos agarradinhas porque o frio era imenso. Aí, a MJ fez a derradeira pergunta: "Queres namorar comigo?". Escusado será dizer que, depois de lhe perguntar se estava mesmo a falar a sério, respondi-lhe que sim.
É lógico que este passo não mudou em nada os sentimentos, não mudou em nada o nosso dia-a-dia, ou o que quer que seja. Mas o simples facto de puder chamá-la de namorada, conseguia deixa-me ainda mais feliz do que o que já estava.
Estávamos assim comprometidas uma com a outra.
No entanto, não fizemos dessa a nossa data. A nossa data será sempre aquele dia em que tudo começou, naquele sítio especial. Aquele dia em que o que sentíamos deixou de poder continuar a ser ignorado.

28 de janeiro de 2011

as reacções

A decisão de contar a alguém da nossa relação já estava tomada. Restava saber exactamente a quem, e a ordem em que íamos contar.
Antes de mais, no dia a seguir à primeira noite em que nos beijámos, contei logo à pessoa em quem mais confio, a quem confio mesmo de olhos fechados. Àquela que pessoa com quem me dou desde que me conheço como gente e que sabia que, apesar de ser provavelmente das pessoas que melhor me conhecem e uma das únicas que acompanhou toda a minha vida, não ia ficar chocada nem nada dessas coisas. Sabia que me ia ouvir e aconselhar, tudo o que estava a precisar. A minha prima.
A primeira pessoa do nosso grupo de amigos a quem decidimos contar acabou por ser a mais óbvia. Um amigo gay. Tendo em conta que esta nossa situação era tão novidade para mim como para a MJ, achámos que seria mais fácil e que ia ter uma boa reacção. De facto, o nosso palpite estava certo. Ele achou imensa piada e ficou mesmo contente por nós. Surpreendido? Nada. Até porque eu já tinha falado com ele algumas vezes antes sobre a possibilidade de ninguém ser totalmente hetero, ou totalmente homo.. simplesmente uma pessoa pode apaixonar-se por outra independentemente do sexo, ou da aparência, apaixona-se por aquilo que ela é.
A seguir a ele, decidimos contar a um casal, duas pessoas mais velhas, com mente bastante aberta e em quem confiamos plenamente. A reacção foi a esperada. Aceitaram com bastante facilidade e a surpresa também foi pouca ou quase nenhuma mesmo. Parece que há pessoas que reparam mesmo em quase tudo e que pouco ou nada deixam escapar!
Depois do casal, um amigo bissexual. Esse sim, ficou surpreso! Disse que nunca me tinha imaginado com uma rapariga. Apesar da surpresa, ficou muito contente pelo sentimento que tínhamos uma pela outra. Aliás, sendo ele nosso amigo, não esperávamos outra coisa dele.
Quatro pessoas do grupinho já estavam. Faltava então uma pessoa, uma rapariga. Confesso que tinha um bocado de medo da reacção dela. De todos, era de quem menos imaginava a reacção que ia ter. Como nossa amiga, esperava que aceitasse e que continuasse a ser connosco o que sempre foi. Mas, no fundo, admito que tinha medo que se afastasse de nós, ou que mudasse a maneira de estar. Mas, de todos, foi também quem teve a reacção mais engraçada! Ahah. Riu bastante, não acreditou, olhou para nós, viu que estávamos a falar a sério, sentou-se, riu outra vez. No fim de tudo isto, disse que era na boa e que não ia mudar nada! Uff. Alivio.
No fim de tudo isto, orgulhei-me a sério dos amigos que tenho.
Para além destas pessoas, contei a outra amiga que conheço desde sempre e cuja reacção confesso que também me surpreendeu um bocado. Ficou completamente na boa.
A quem foi mais difícil de contar, foi à minha irmã, uma miúda de 14 anos, que se revelou ser mais mulherzinha do que aquilo que pensava. Primeiro, custou-lhe a acreditar, como era de esperar. Mas, depois de ler este meu blog, percebeu que estava de facto a falar a sério. Aceitou muito bem mesmo. Até me perguntou qual era a sensação! Disse também que era um bocado estranho para ela, que tinha ficado um bocado chocada. Mas é perfeitamente normal que pense isso. Afinal de contas, sou irmã dela, conhece-me desde que nasceu, conheceu namorados meus.. Mas aceitou e ficou também contente por eu estar feliz como nunca! Agora sim, orgulho-me mesmo imenso dela. Fez-me ter esperança na geração dela. Fez-me acredita que a sociedade vai mudar!
Agora agradeço a todos pelo apoio. Se bem que, quando há verdadeira amizade, os amigos querem a felicidade uns dos outros, independentemente de tudo. Quando há verdadeira amizade, não é preciso agradecer, basta devolver a amizade de maneira igual.
De facto, os amigos são mesmo o melhor do Mundo!

22 de janeiro de 2011

nosso mundo vs mundo real

Depois do reencontro em público, no qual quase nem tocar-lhe podia, tivemos o tão espero reencontro a sós.
Estava nervosa. Não sabia o que fazer, ou o que dizer. Apetecia-me beijá-la, abraçá-la, dar-lhe a mão... Mas, no fundo, faltava-me o à vontade. Faltava-me a certeza de que ela queria o mesmo que eu, ali, naquele preciso momento. Pouco faltou até descobrir que sim, queria o mesmo que eu!
Ali, no meu quarto, começou a formar-se um novo Mundo, um Mundo completamente à parte, o nosso Mundo. Era ali, no meu quarto, que podíamos ser realmente nós, que podíamos demonstrar uma à outra o que sentíamos. Começámos a passar mais tempo ali dentro, do que em qualquer outro sítio. Ninguém do lado de fora sabia desta nossa nova vida, desta nova razão de existir. Ninguém do lado de fora sabia o que sentíamos uma pela outra.
Ali, no meu quarto, éramos tudo. Não haviam vergonhas, constrangimentos, tabus ou medos. Havia gargalhadas, toques, pura felicidade. Era um completo sonho, onde a noção da realidade estava sempre presente. Quando saíamos à rua, não passávamos de duas boas amigas, como qualquer outras duas boas amigas.Era como se nada estivesse a acontecer, era como se nada nunca tivesse acontecido. Quando voltávamos ao Mundo Real, um simples olhar que trocávamos podia ser detectado. Um olhar cheio de vontade, um olhar cheio de desespero, um olhar cheio de sentimento...
Começámos a ter noção do quão complicados os dias iam passar a ser. Do autocontrole que tínhamos de começar a ter.
O primeiro jantar "pós-férias" não tardou muito. Nestes jantares, nunca falta o álcool, que em nada ajuda no autocontrole. A MJ não parava de beber, bebia para esquecer, dizia ela. Eu, pouco ou nada bebi. Sabia que não podia. Tinha de manter o controle pelas duas. Caso contrário... a noite podia ter corrido mal, muito mal. Acabámos por dormir em casa dum casal do nosso grupo de amigo, onde foi o jantar.
Sabíamos que a nossa relação não ia ser fácil. Mas havia algo que a podia tornar melhor. Contar ao nosso grupo de amigos talvez fosse uma boa solução. Pelo menos, podia haver alguém à frente de quem podíamos o misturar o nosso Mundo com o Mundo real. Mas será que íamos ser aceites? Será que os nosso amigos iam realmente mostrar ser nosso amigos e querer a nossa felicidade acima de tudo? Apesar do medo que ainda havia, a certeza de que eles não nos iam desiludir era maior.

21 de janeiro de 2011

a conversa, as saudades

Depois de ter tido a noção do que estava realmente a sentir, tinha de falar com ela. Tinha de lhe perguntar o que ela tinha sentido quando estivemos juntas. Tinha de lhe perguntar o que ela sentia por mim. Tinha de perceber e saber qual o lado dela. Então, mandei-lhe uma mensagem.
Na mensagem que lhe mandei, perguntei se tinha a noção de que nunca tinha estado com outra mulher antes, de que nunca sequer tinha sentido qualquer tipo de atracção por uma. (De facto, para mim, mulheres sempre tinham sido simplesmente mulheres. Amigas, colegas, indiferentes..) Disse-lhe também que, apesar de tudo isso, tinha gostado de estar com ela, tinha-me sentido mesmo muito bem. Confesso que não sabia qual seria a resposta dela. Apesar de muito amigas e de já ter notado algo "de estranho" em relação a nós, nunca lhe tinha perguntado qual era realmente a orientação sexual dela. Finalmente, a resposta chegou. Disse que também nunca tinha estado com nenhuma mulher antes. Tal como eu, sempre tinha sido heterossexual e era assim que ela se sabia e conhecia. Apesar disso, também se tinha sentido muito bem comigo e estava a lixar-se para o resto e que o melhor era levarmos tudo isto "na descontra". Apesar de contente com a resposta dela, não sabia o que queria. Ainda era tudo muito estranho para mim.
Estivemos um dia longe uma da outra. Apenas um dia bastou para sentir saudades dela.
Nesse dia que parecia interminável, pensava sobre tudo e sobre nada. Lembrava-me a toda a hora de cada momento que tivemos. Lembrava-me a toda a hora do olhar, do sorriso, do toque, do beijo.. Sabia que só queria voltar a estar com ela para a ter novamente. Assim. Comigo.
O dia estava a acabar. Faltava pouco para a ver de novo.
Quando finalmente os nossos olhos se voltaram a cruzar, a vontade de a abraçar crescia dentro de mim. No entanto, fui-me apercebendo de que a ideia de estar apaixonada por uma mulher era muito mais simples e fácil de aceitar do que tudo o que isso implica quando se vive numa sociedade como a nossa..

19 de janeiro de 2011

a descoberta

Uns dia antes da passagem de ano, eu e MJ dormimos juntas pela primeira vez. Mãos dadas, cara quase colada, beijinhos na cara, a noite toda agarradas... Amizade? Sem dúvida. Mais ainda do que apenas amizade? Absolutamente.
Mais uma noite. Mais do mesmo.
Um dos desejos para 2011: continuarmos tão próximas, ou mais ainda.
Fiz questão de que fosse a primeira pessoa a abraçar neste novo ano. Um abraço carregado de tanto sentimento que quase a sufocava.
Alguns minutos depois da meia noite e depois de toda aquela algazarra e euforia características nos jovens por mais um ano ter passado, a MJ beijou-me pela primeira vez. Reacção: um grito. Admito que não estava à espera daquilo. Ou talvez já tivesse, talvez já tivesse pensado em fazê-lo, mas nunca pensei que alguma vez fosse realmente acontecer. Depois disso, um xoxo aqui, um xoxo ali... Até que voltámos para casa.
Em casa, já só desejava que todos fossem dormir para ver o que ia acontecer depois, só as duas, sem ninguém à nossa volta. A curiosidade e a ânsia de saber eram imensas. E as pessoas teimavam em não se deitar...
Finalmente, pudemos ficar a sós. Xoxo, xoxo, xoxo, língua, língua... Lembro-me de pensar que a língua dela era diferente de todas as que já tinha experimentado. Era rugosa. Lembro-me de pensar "Mas o que está a acontecer, afinal?". Não conseguia parar. No fundo, aquela situação pareceu-me absolutamente normal, tendo em conta tudo o que já tinha acontecido antes, e toda aquela carga de qualquer coisa especial à nossa volta. Sentia-me tão bem com ela. Nem era preciso falar, bastava olhar para ela para saber que ela estava a sentir o mesmo. Bastava sentir-nos...
Acabámos por adormecer. Mais uma vez, agarradinhas.
Quando acordei, sei que pensei: "Será que foi um sonho? Se não foi, terá sido uma coisa de momento, ou vai acontecer outra vez?". Pouco demorou a perceber que não, não tinha sido apenas um sonho e que sim, ia acontecer outra vez.
Éramos para ir embora nesse dia. Ela pediu-me discretamente para ficarmos. E eu fiquei. Queria ficar. Passei o dia todo a desejar que a noite chegasse depressa. Não conseguia parar de olhar para ela. Não me conseguia afastar.
Depois de uma dia que parecia não ter fim, a noite chegou. Estávamos novamente a sós. Voltámos a beijar-nos até altas horas. Era difícil parar, era difícil pensar sequer em dormir quando aquele era o único momento em que podíamos estar realmente juntas a conhecermo-nos uma à outra como nunca pensei vir a conhecer uma mulher, a descobrirmos em conjunto o que sentíamos uma pela outra e a deixar esses sentimentos vir ao de cima.
Foi tudo tão puro.
Quando me fui embora, não conseguia deixar de pensar nela e no que tinha acontecido. Sentia-me como há muito não me sentia. Feliz, simplesmente. As dúvidas do que sentia começaram a desaparecer. Estava realmente a apaixonar-me por uma mulher.

18 de janeiro de 2011

o começo

Não há muito tempo, eu e a MJ, chamemos-lhe assim, não passávamos de duas colegas de turma como todas as outras. Estávamos juntas quando tínhamos de estar, falávamos quando tínhamos de falar. Mas não tínhamos aquilo a que podíamos chamar de uma grande amizade. Gostava dela, como gostava de mais gente da turma. Era uma pessoa absolutamente normal.
Nesse "não há muito tempo", eu namorava com um rapaz e também pouco ou quase nada saía ou estava com as pessoas da minha turma, a não ser o tempo de aulas e mal.
Entretanto, o namoro acabou e a minha vida mudou. Finalmente podia aproveitar o melhor que a Universidade pode dar, as amizades. Não sei como, não sei porquê, mas fui aproximando da MJ. Fui estando mais tempo com ela, fui começando a conhecê-la realmente e começando realmente a gostar de a conhecer. Entre jantaradas, bebedeiras, faltas às aulas para passar tardes inteiras no café e coisas que tais, fomos criando uma forte amizade. Pouco demorou a andarmos sempre juntas.
Encontrei na MJ uma pessoa cinco estrelas. Com uma personalidade e um feitio especiais, diferentes. "Maria-rapaz", despreocupada, divertida... Não sei explicar, mas qualquer coisa começou a atrair-me nela. Quanto mais estava com ela, mais queria estar. Quanto mais tinha dela, mais queria ter. Das mãos dadas aos abraços carregados de muita coisa mais que amizade no calor da bebedeira, dos olhares cúmplices aos carinhos na absoluta sobriedade... Algo de estranho se começava a passar.
De facto, sempre defendi a ideia de que nos podemos apaixonar pela personalidade duma pessoa, independentemente do seu sexo, ou do seu aspecto. O que é certo, é que não era só a personalidade dela que me atraía. Confesso que algo no seu aspecto me prendia também. No fundo, tinha a noção de que estava a começar a ficar apaixonada. Mas, automaticamente, o meu cérebro bloqueava essa ideia porque, pura e simplesmente, "não podia ser". Como podia eu estar a apaixonar-me por uma mulher se nunca na vida tinha sentido qualquer tipo de atracção por uma?! Como podia eu estar a apaixonar-me por uma mulher se já tinha tido uns quantos namorados e se sempre tinha gostado apenas e só de homens?!
Tantas certezas antes, tão poucas certezas depois. Parece que a vida já tinha planeado em pregar-me uma partidazinha...

17 de janeiro de 2011

este é um blog anónimo

Este é um blog anónimo de alguém que achava que se conhecia quase por completo, mas que, há muito pouco tempo e já nos seus vinte anos, descobriu que há muito mais para conhecer dela do que aquilo que pensava.
Heterossexual desde que se lembra de existir, começou a ter sentimentos completamente desconhecidos por aquela em quem via "a melhor amiga". Sentimentos esses que automaticamente eram arrumados pelo cérebro na zona da amizade, já que era como se não pudessem ser outra coisa. Numa noite, esses sentimentos começaram a fazer sentido, mas tudo até então deixou de o fazer. A partir dessa noite, tudo mudou. Descobriu amar alguém do mesmo sexo. Descobriu que essa pessoa, também heterossexual até então, a amava a ela.
Este é um blog anónimo de alguém que, apesar de todas as descobertas e de todas as surpresas, está muito feliz e precisa de partilhar a sua felicidade com o mundo.
Este é o meu blog. Esta é a minha nova história.